Nesta série de artigos escritos pelos integrantes do Comitê de Facility Management em Serviços de Saúde serão abordados temas de interesse para os gestores de FM em ambientes de saúde.
Artigo 1 – O Papel do Gestor de Facility Management Frente à Resistência à Inovação
Por Alexandre Abdo Agamme e Marcelo Boeger
A crescente complexidade dos serviços de saúde exige do gestor de Facility Management não apenas conhecimento técnico, mas conformidade com as normas vigentes sanitárias para assegurar aos clientes segurança e eficiência operação ao empreendimento.
Mas é também seu papel buscar inovação contínua nos métodos, processos e protocolos. Seu escopo, atuando na Saúde, deve contemplar e apoiar – não somente a Infraestrutura como um todo – mas abranger apoio à área de Controle de Infecção Hospitalar discutindo, por exemplo, a eficácia da desinfecção de superfícies. E, sobre a qualidade do tratamento do ar, especialmente quando abordamos as áreas críticas de um Instituição de Saúde.
Conforme definição da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), as áreas críticas são aquelas com maior risco de transmissão de infecções, como centros cirúrgicos; unidades de terapia intensiva adulto e infantil; laboratórios de análises clínicas; pronto atendimentos e unidades de isolamentos. Sabe-se que a presença de microrganismos patogênicos em superfícies e no ar pode comprometer a saúde de pacientes imunodeprimidos e da equipe clínica.
Nesse contexto, o gestor de Facility Management (FM) desempenha um papel essencial na implementação de processos operacionais, na capacitação de suas equipes e na busca constante de novas tecnologias.
Mas, a busca pelo novo pode resultar ao gestor ter de enfrentar resistências culturais e estruturais às mudanças. Muito evoluímos em conhecimento técnico, porém, não é raro esbarrarmos na dificuldade em inovar, adaptar o modelo e repensar ou romper com técnicas e produtos, ficando reféns de processos obsoletos.
Este fenômeno pode ter vários motivos, inclusive os fundamentais como a necessidade de validação rigorosa das novas tecnologias, a complexidade da resistência microbiana e a resistência às mudanças em protocolos estabelecidos.
Percebemos que a relutância em adotar novas ideias, tecnologias ou práticas em nosso meio, muitas vezes, pode estar baseada no medo do desconhecido, da incerteza ou do impacto potencial na rotina estabelecida. É natural a resistência para preservar os resultados monitorados, no entanto, nem toda inovação é obrigatoriamente melhoria.
Novos processos, produtos ou tecnologias implicam em mudança de modelos mentais, processos de transição podem vir recheados de incertezas, riscos, levando a um comportamento de resistência à adoção. Com isso, algumas tecnologias consagradas há décadas ainda são vistas como inovadoras por algumas Instituições de Saúde.
A tecnologia de desinfecção tem suas raízes em diferentes momentos históricos. A luz UV-C como desinfetante foi relatado pela primeira vez em 1910. A aerolização de peróxido de hidrogênio é conhecida há várias décadas – assim como a desinfecção eletrostática.
Sistemas de filtragem HEPA (High Efficiency Particulate Air) – tipo de filtro de ar de alta eficiência – embora tenham evoluído ao longo do tempo, foram desenvolvidos na década de 1940 com o objetivo de filtrar partículas radioativas. E não é de hoje que temos vistos resultados positivos com a nanotecnologia sobre as boas propriedades do cobre (que já eram conhecidas pelos egípcios há mais de dois mil anos antes de Cristo).
Em tempos de uso de inteligência artificial (IA), machine learning, IoT, blockchain e clowd – existe maior disposição e abertura para repensar o novo e cabe também ao gestor de FM buscar inovação em seus processos para maximizar resultados.
A integração de sensores, o uso de IoT para avaliar disponibilidade, automação com monitoramento contínuo no controle de umidade, vibração e pressão com validações contínuas (manutenção preditiva sobre motores, bombas, compressores, chillers e ar condicionado); controle sobre volumes; alertas em tempo real e B.I.s (para divulgação de KPIs) sobre a higiene podem apoiar em evidências, reduzir resistências, melhorar comunicação e engajar para o novo.
Cabe ainda ao gestor de FM atuar como facilitador das mudanças, sabendo enfrentar resistência com evidências e conhecimento técnico. Sua atuação é decisiva para garantir ambientes seguros, eficientes e alinhados às melhores práticas internacionais e cumprimento das normas e resoluções vigentes nos segmentos de saúde.
No próximo artigo o destaque será um inventário das normas publicadas existentes sobre o tema no Brasil e no exterior, com foco em padrões de qualidade do ar, sistemas de filtragem e controle de contaminação assim como sobre a desinfecção de superfícies.
Referências Bibliográficas
ELLEN, P. S., W. O. et al. Resistance to technological innovations. An examination of the role of self-efficacy and performance satisfaction. Journal of the Academy of Marketing Science, 19 (4): 297–307, 1991.
OREG, S. Resistance to change: Developing an individual differences measure. Journal of Applied Psychology, 88 (4): 680–93, 2003.
SCARANELLO et al. – Gestão Estratégica em Saúde: Oportunidades e Desafios. Estudo publicado no IOSR Journal of Business and Management, abordando inovação, eficiência e humanização na gestão hospitalar, 2025.
OLIVEIRA, S.R.M. (Ibict) – A aplicação da Ciência e Tecnologia como ferramenta de qualidade na Gestão da Inovação em saúde pública.
Joint Commission International – Manual de Padrões para Acreditação de Hospitais – 8ª edição. Introduz o capítulo “Global Health Impact”, com foco em sustentabilidade ambiental e controle de riscos hospitalares, 2024.
Saúde Sem Dano (SSD) – Agenda Global para Hospitais Verdes e Saudáveis, 2025.

