Por Jéssica Marques

Francisco Abrantes, um dos fundadores da ABRAFAC – Associação Brasileira de Facilities, lançou recentemente o livro “Gerenciamento de Facilities e Properties”.  O especialista é formado em Administração de Empresas pela Universidade Campos Salles, possui pós-graduação em Gestão de Pessoas e Finanças e MBA em parceria pelo Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa e University of Dallas.

O autor já atuou em empresas do segmento do varejo, farmacêutico, TI, Oil & Gas, TV & rádio, mineração e de serviços. Foi Head da Unidade de Negócios de Facility Management no Brasil da maior empresa de gestão de ativos do mundo (Jones Lang LaSalle, agora JLL).

Além de fundador da ABRAFAC, também foi o primeiro tesoureiro, vice-presidente, presidente executivo e presidente do Conselho Fiscal da Associação. Atualmente, é membro do Conselho Deliberativo.

Confira a entrevista a seguir:

Portal ABRAFAC – O senhor tem experiência nos segmentos de varejo, farmacêutico, Hospitalar,TI, Oil & Gas, TV & rádio, mineração e de serviços. De que forma estas vivências auxiliaram no processo de criação do livro?

Francisco Abrantes – As experiências adquiridas nesses setores habilitam-me a afirmar que, na essência, a área de Facilities não sofre muita interferência oriunda do frontoffice, ou seja, do core business da empresa.

Claro que existem especificidades que devem ser atendidas e respeitadas, dependendo do setor e segmento da empresa. Por exemplo nas áreas de Oil & Gas e Mineração, as questões relacionadas ao que denominamos de SHE (Safety, Healthy and Environment) são muito mais exigentes e presentes no dia-a-dia, do que em outros setores. Não que nos demais não seja tão importante quanto.

Outro exemplo que me ocorre é o do setor hospitalar, onde o processo de higienização e limpeza seguem padrões que não são tão presentes, de modo geral, em outros segmentos.

Costumo dizer que foi na minha passagem pela área hospitalar que comecei a dar mais atenção à limpeza e organização do teto – até então meus olhos caminhavam mais pelos pisos e paredes. Essa atenção se revelou preponderante quando eu me dei conta que uma grande parcela dos meus usuários/clientes ficava na horizontal (deitados em macas ou em camas) e ainda dispunham de bastante tempo para observar detalhes.

A meu ver, o que, eventualmente, pode promover alterações estruturais na forma de atuar da área de FM é muito mais a cultura organizacional da empresa do que propriamente o segmento no qual a empresa está inserida. Um exemplo que posso trazer para ilustrar essa afirmativa são as empresas que tem a cultura da organização informal, onde os conceitos departamentais, de hierarquia e relacionamento ultrapassam fronteiras que conhecemos. Isso gera space planning totalmente diferente daquilo que temos presente em empresas formais. As relações existentes, predominantemente matriciais, demandam mais espaços colaborativos e assim seguem, demandando uma adaptação da área de FM para atender todas as demandas, nem sempre convencionais. Enfim, todas essas particularidades e generalidades, que pude vivenciar, legaram profundo e enriquecedor conhecimento da área, que tento, de modo bastante prático e objetivo, mostrar no livro.

Portal ABRAFAC – A quais setores o livro melhor se aplica e por quê?

Francisco Abrantes – O livro não é direcionado a um setor em específico. A minha experiência na área, não só como contratante, mas também como prestador de serviços, liderando a área de negócios de FM de uma grande multinacional, me auxiliaram a trazer uma visão bastante ampla da atuação dos profissionais da área. Se eu tivesse que direcionar o conteúdo do livro, eu diria que é interessante para todos aqueles que querem se aprimorar em todo os macro processos que estão sob nosso gerenciamento.

Portal ABRAFAC – Na obra o senhor apresenta subsídios para que os profissionais que atuam em FM possam iniciar seu aprimoramento. De que forma o livro contribui para o início deste processo?

Francisco Abrantes –Tentei ser bastante didático, dividindo o livro em capítulos que focam temas específicos dentro do grande guarda-chuvas que está direta ou indiretamente sob a nossa influência e gestão. Começo pela história e evolução da profissão, seguindo de uma abordagem sobre as Competências do profissional, baseados no estudo promovido pelo IFMA – International Facility Managemnent Association, e depois seguimos passando por todos os macroprocessos que compõem a nossa responsabilidade, tanto operacional como acessória e administrativa.

Portal ABRAFAC – O que é possível aprender com a obra?

Francisco Abrantes – Este livro é o resumo da experiência de um profissional que viveu a área de FM, desde quando ela era chamada de Serviços Gerais e ficava no subsolo das empresas. Acompanhei o crescimento da área, fui presidente de um grupo de profissionais que existe até o hoje que é o GRUPAS, participei da fundação da ABRAFAC, fui membro eleito da primeira diretoria, posteriormente seu presidente executivo, permanecendo ora no Conselho Deliberativo, ora no Conselho Fiscal, atualmente como presidente do Conselho Fiscal. Trago experiência internacional de ter atuado profissionalmente em empresas globais e como diretor do Board do IFMA, do Global FM e membro do conselho de profissionais da FAMU – Florida University no curso de FM. Por isso acredito que esse livro traz uma visão abrangente de todos os macro-processos da área além de uma visão histórica da evolução da profissão no tempo.

Portal ABRAFAC – O que o senhor aprendeu ao escrever este livro?

Francisco Abrantes –Aprendi muito! Certamente muito mais do que eu esperava e acreditava. Primeiramente a necessidade da disciplina e foco. Não é fácil dedicar-se ao projeto de escrever um livro aliado à toda demanda profissional, social e familiar. Requer um planejamento intensivo e disciplinado, caso contrário você não atinge o objetivo final. Na verdade, esse livro não foi escrito somente por mim.

Houve a contribuição de 40 profissionais que voluntaria e atenciosamente contribuíram para o conteúdo da obra. Uma parte auxiliou-me na revisão do conteúdo e outra parte contribuiu com o conteúdo, compartilhando suas pesquisas, experiências e conhecimento, constantes do capítulo 11 do livro. Contribuições de amigos do mundo, tanto é que mantive a contribuição na língua enviada – o inglês. Toda essa interação trouxe ensinamentos que jamais teria obtido senão fosse o projeto desse livro. Sou muito grato a todos.

Portal ABRAFAC – Em sua visão, qual a importância do Facility Management para as pessoas e para os negócios?

Francisco Abrantes – Primeiramente devo ressaltar a surpresa de ver que você pergunta a importância dos profissionais de FM, não só para as empresas, mas inclui as pessoas na pergunta. Fico feliz de poder responder dizendo que a contribuição maior que o profissional pode trazer não é diretamente para a empresa e sim para as pessoas da empresa, colaboradores e parceiros.

Ao propiciar um ambiente adequado, seguro e confortável estaremos dando plena condição para que as pessoas possam desenvolver suas funções extraindo o máximo que podem oferecer, chegando no auge das suas habilidades e potencialidades e assim entregar o melhor que a empresa espera receber.

Isso parece utópico e poético, mas é a pura verdade. Tente trabalhar num local insalubre, onde condições mínimas de higiene, temperatura, ergonomia entre outros aspectos não estão dentro do mínimo aceitável. Meça a produtividade e a qualidade dos resultados dessa área em comparação à primeira área. Daí já passamos a mensurar e a tangibilizar a contribuição que damos para as empresas. Outro aspecto é que toda economia gerada através de otimização e/ou maximização de processos e de práticas adotadas são lucro direto das empresas. Essa economia vai direto para o resultado das organizações. Enfim, a área não é somente backoffice é também uma grande aliada no atingimento dos resultados da empresa, de modo geral.

Portal ABRAFAC – De que forma o livro evidencia esta importância?

Francisco Abrantes – O livro traz os conceitos importantes para trilhar esse caminho, evidencia a importância da capacitação profissional para não cairmos de paraquedas na área e através do achismo, tomarmos decisões equivocadas e até mesmo erradas.

Portal ABRAFAC – De que forma sua vivência internacional contribuiu para a produção deste livro?

Francisco Abrantes – Ao participar do Board of Directors do IFMA e do GlobalFM e de ter trabalhado em empresas americanas, tive a oportunidade de ver a realidade fora do Brasil e atestar o vasto caminho que temos para evoluir e melhorar nossos processos e modelos. O lançamento da Norma ISO 41000 e seus desdobramentos é uma grande oportunidade que temos para nos aproximar e implantar no Brasil as melhores práticas da área ao redor do mundo. Já tivemos, inclusive, a certificação do primeiro condomínio empresarial com base nessa norma, trata-se do CEMHS – Centro Empresarial Mario Henrique Simonsem na cidade do Rio de Janeiro.

A experiência internacional é que me alertou para a necessidade de escrever esse livro e trazer para o Brasil alguma obra que pudesse, ainda que de forma bastante simples e sem nenhum cunho e interesse acadêmico, orientar aos profissionais, especialmente os entrantes e iniciantes na profissão, dos conceitos, modelos, processos e conhecimentos existentes mundo afora. No capítulo 11 do livro eu abro espaço para participação de profissionais que conheci tanto no Brasil como pelo mundo, compartilhando suas experiências e conhecimentos, que julgo importantíssimos para todos nós.

Portal ABRAFAC – Em quais países o senhor teve oportunidade de vivenciar o FM e como compara esta experiência ao que está sendo feito no Brasil?

Francisco Abrantes – Estive por alguns países, mas posso comparar especialmente entre aqueles que estão à nossa frente e podem contribuir com as melhores práticas e que devem ser o nosso benchmarking. Posso citar Canadá e EUA, com uma boa surpresa para o Panamá. A Inglaterra, Alemanha e França possuem modelos bastantes estruturados. Tive muito contato com o pessoal da ARSEG a associação de FM da França e com o BIFM a associação de FM da Inglaterra. Aliás a norma ISO 41000 foi idealizada e capitaneada por um dos ex-presidentes do BIFM, idealista e fundador do GlobalFM, que também contribuiu generosamente com um texto contido no livro, Stanley Mitchel. Nos EUA, além de ter trabalhado em três empresas americanas, fui diretor do Board do IFMA.

Portal ABRAFAC – Que pontos positivos podem ser destacados no FM brasileiro?

Francisco Abrantes – Como é característico de todo o povo brasileiro, devo ressaltar a criatividade e a grande capacidade de adaptabilidade aos diversos cenários macroeconômicos que somos cotidianamente compelidos, como sendo genericamente os pontos positivos dos nossos profissionais. O FM brasileiro ainda é um profissional em construção, que se molda diante das realidades interpostas.

É proveniente de experiências e formação acadêmica das mais distintas e peculiares como, por exemplo: Filosofia e Psicologia. Não existe em nível tecnólogo, quanto mais em nível de graduação nenhum curso de formação acadêmica especifico. Predominantemente, a profissão é formada por engenheiros e administradores de empresa, mas não se fecha nessas duas áreas. Daí considerar a adaptabilidade como um ponto positivo desse profissional. Devo apenas ressaltar que a adaptabilidade é um passo, ou melhor, porta aberta, para a improvisação e informalidade, práticas nefastas em todas as áreas. Devemos tomar todo cuidado possível para não adentrar por essa porta.

Portal ABRAFAC – O que poderia ser melhorado, em comparação ao que já existe no exterior?

Francisco Abrantes – Não estamos tão atrasados em relação ao restante do mundo. Diria até, que já temos as melhores práticas de mercado aplicadas em muitas empresas, especialmente nas multinacionais que seguem seus métodos e padrões e acabam influenciando o mercado brasileiro. A ABRAFAC vem contribuindo ativa e positivamente para nos aproximar dos Best Cases e incentiva, através de premiação anual, que os profissionais compartilhem seu projetos e ações com o intuito de reconhecer o profissional, mas também e diria que sobretudo, trazer para conhecimento do mercado esses resultados que podem se transformar em benchmarking. Tivemos, inclusive, um case premiado pela ABRAFAC que foi submetido ao GlobalFM que também identificou relevância no projeto, premiando o profissional na modalidade. Isso demonstra, de modo geral e de forma inequívoca, que não estamos a reboque do mundo em termos de soluções, métodos e processos. Ao longo desses 15 anos da ABRAFAC muitas conquistas já se materializaram e a aproximação com as outras associações em constante troca e intercambio possibilitou-nos rápido e, de certa forma, fácil acesso ao mundo de Facilities.

Portal ABRAFAC – Como o senhor avalia a baixa disponibilidade de material em português sobre FM?

Francisco Abrantes – Infelizmente essa é uma realidade que enfrentamos no segmento e um dos grandes motivadores para eu lançar esse livro. Praticamente inexiste literatura técnica destinada aos profissionais de FM de forma estruturada e consolidada. O interessado tem que lançar mão de literaturas nos ramos da engenharia, arquitetura, administração, direito e por aí vai, na busca incansável pelo conhecimento. Tenho certeza que outros livros virão após o meu, contribuindo para a capacitação formal dos nossos profissionais.

Portal ABRAFAC – De que forma esta questão está sendo resolvida?

Francisco Abrantes – Nada ainda direcionado. A ABRAFAC tem material que pode ser acessado pelos seus membros. É contido ainda, um espaço aberto e carente de contribuições.

Portal ABRAFAC – Em sua visão de fundador, que avanços no setor de FM podem ser destacados desde a fundação da ABRAFAC?

Francisco Abrantes – O lançamento da ABRAFAC foi num momento importante e culminou com interesses convergentes entre os grupos de profissionais existentes na ocasião e que se encontram em plena atividade até os dias de hoje – GRUPAS, GAS E MBA-POLI.

O cenário da ocasião demandava um representante formal que canalizasse os interesses e necessidades dos profissionais de modo estruturado e profissionalizado. A ABRAFAC ocupou esse espaço e ao longo dos anos consolidou-se como a representante da categoria. Primeiramente trouxe reconhecimento para a categoria de profissionais que não tinham nenhuma referência. Esses profissionais tinham inúmeras titulações dependendo da empresa que estavam alocados, hoje já se vê de forma disseminada a titulação de Facility Manager nas empresas. Essa identidade já representa um avanço na unidade da categoria profissional. Caminhamos para o reconhecimento da mesma junto aos órgãos de regulamentação das profissões, iniciativa que a ABRAFAC lidera junto ao CBO – Classificação Brasileira de Ocupações.

A associação da ABRAFAC junto ao GlobalFM em 2008, nos aproximou de todas as demais associações integrantes, inclusive a que sempre foi o nosso benchmarking – IFMA – International Facility Management Association.

Logicamente esse passo abriu as portas do mundo para todos os profissionais, especialmente os membros da ABRAFAC. Recentemente tivemos um projeto desenvolvido por um brasileiro premiado pelo GlobalFM, como já mencionado anteriormente. Os eventos da ABRAFAC falam por si só, ano após ano, desde o seu lançamento, é sucesso de público e parcerias. Enfim, de modo bastante sucinto a ABRAFAC abriu portas para que todos os profissionais da categoria pudessem se identificar e encontrar uma referência para o seu desenvolvimento e capacitação profissional.

Para saber mais sobre o livro “Gerenciamento de Facilities e Properties”

, acesse o site http://www.gerenciamentodefacilities.com/

 

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